A conta de água voltou ao centro das reclamações de moradores de Alphaville e região, em Barueri e Santana de Parnaíba. Relatos de faturas consideradas “fora do padrão”, algumas superiores a R$ 5 mil, têm sido compartilhados em grupos de moradores e redes sociais, levantando dúvidas sobre possíveis falhas de medição, troca de hidrômetros e critérios de cobrança da concessionária.

Uma enquete realizada nas redes sociais da Folha de Alphaville, entre os dias 22 e 23 de junho, aponta que 90% dos participantes afirmaram ter percebido aumento considerado injustificado nas contas de água. Apenas 10% disseram não ter notado variação relevante.

Entre os possíveis motivos, 41% dos entrevistados atribuíram os reajustes a erro de leitura ou cobrança, 39% apontaram falta de transparência da Sabesp, 7% mencionaram vazamentos internos e 3% não souberam opinar.

Quando questionados sobre soluções, 45% defenderam maior fiscalização da agência reguladora, 26% pediram revisão das leituras de consumo, 25% maior transparência nas faturas e 3% melhor atendimento ao consumidor.

Além da percepção da enquete, moradores relatam nas redes sociais e em aplicativos de mensagens contas muito acima da média habitual, especialmente em condomínios da região. No Residencial 9, em Santana de Parnaíba, foram citados ao menos treze endereços com aumentos considerados fora do padrão.

“De R$ 800 para mais de R$ 2 mil”: consumidores relatam mudança brusca

Entre os relatos, o empresário Luiz Antônio Mendes Júnior, morador do Residencial 9, em Alphaville (Santana de Parnaíba), há 11 anos, afirma que a situação começou há cerca de seis meses.

Segundo ele, as contas da residência passaram de uma média histórica de cerca de R$ 850 para valores que chegaram a R$ 2.360, sem qualquer alteração no consumo da casa.

“Não houve qualquer mudança na rotina da casa que justificasse esse aumento. O número de moradores permanece o mesmo, não adquirimos novos equipamentos e nossos hábitos continuam exatamente iguais”, afirma.

O morador relata ainda que buscou revisão junto à concessionária e realizou inspeções particulares para verificar possíveis problemas internos. “Contratei profissionais para verificar possíveis vazamentos e realizar inspeções na instalação hidráulica. Nenhum problema que justificasse esse aumento foi encontrado, o que gerou um custo adicional que não deveria ter sido necessário”, diz, frustrado.

“Tenho registrado reclamações junto à Sabesp e solicitado revisões das contas. A resposta é que não há irregularidade no hidrômetro, mas isso não explica a diferença entre o consumo histórico e os valores atuais”, diz.

Ele afirma que avalia entrar com ação judicial caso não haja solução administrativa.

Várias contas acima de R$ 5 mil em uma casa que consumia R$ 500

A bancária Tatiana Rodrigues Alves, também moradora do Residencial 9, relata um histórico de cobranças elevadas desde 2024, com faturas muito acima da média habitual da residência.

Segundo ela, os valores começaram a subir de forma abrupta ainda em 2024, quando foram registradas contas de R$ 5.677,93 (junho) e R$ 5.876,92 (julho), dentre várias outras nesse mesmo patamar, significativamente superiores ao padrão anterior, que ficava abaixo de R$ 500 mensais.

Questionada sobre os valores mensais habituais, Tatiana disse que as contas ficavam “abaixo de R$ 500,00 e foram subindo, chegando a uma média de R$ 1000,00”. Ela também garante que não houve qualquer mudança na rotina da família.

A consumidora relata que chegou a contratar empresas especializadas para verificação de vazamentos, mas não houve identificação conclusiva de problemas na rede interna. Em meio às tentativas de contestação, o caso foi levado à Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp).

Em resposta formal à reclamação, a Arsesp informou que solicitou esclarecimentos à concessionária e que o hidrômetro da residência foi submetido à aferição técnica.

Segundo o documento, o equipamento foi reprovado no teste, o que levou à geração de crédito para a consumidora. A restituição informada foi de R$ 6.004,90, referente a faturas revisadas do período entre junho e outubro de 2025, com pagamento confirmado em 29 de dezembro de 2025. Mas esse valor refere-se a apenas algumas das contas exorbitantes que já recebeu.

Apesar disso, Tatiana afirma que o problema não foi completamente resolvido. Em 2026, ela voltou a receber cobrança elevada, dentre elas uma fatura de R$ 2.866,82, além de um novo episódio recente que resultou em uma conta de aproximadamente R$ 5.600,00, que ela precisou parcelar em quatro vezes de R$ 1.554,23.

“Depois que trocaram o hidrômetro, normalizou por um ano. Agora o problema voltou novamente”, afirma. “Já contratei um advogado que est abrindo processo nesse momento”, diz.

Tatiana relata ainda que o problema não se limita ao impacto financeiro e emocional. Ela afirma que a situação se tornou recorrente e exige acompanhamento constante das faturas, o que interfere diretamente em sua rotina de trabalho.

“Fico todos os dias entrando no aplicativo com medo da próxima conta. Tenho que sair do trabalho para resolver isso, passo horas no telefone tentando entender o que está acontecendo”, diz.

Além dos custos elevados com as contas de água que se arrastam por dois anos, a moradora do Residencial 9 diz que também já teve grandes despesas para verificar se havia vazamentos na casa: “cheguei até a contratar três empresas de caça vazamento e paguei super caro”.

Sabesp diz que não há falha generalizada

Em resposta às reclamações, a Sabesp informou não ter identificado fatores operacionais que justifiquem aumento generalizado de consumo na região de Alphaville.

Segundo a concessionária, cada caso é analisado individualmente e as variações podem estar associadas a diferentes fatores, como aumento real de consumo, vazamentos internos, regularização de consumo acumulado ou mudança de faixa tarifária.

A empresa afirma ainda que realiza revisão de faturas em até 15 dias após solicitação do cliente, com possibilidade de suspensão temporária da cobrança durante a análise.

Quando há indícios de falha no equipamento, pode ser feita vistoria técnica gratuita no hidrômetro e no cavalete. Caso seja confirmada responsabilidade da concessionária, a conta é reemitida.

A Sabesp também afirma manter sistema de alerta quando o consumo ultrapassa 30% da média habitual do imóvel e diz seguir normas do Inmetro na medição.

Arsesp registra aumento de reclamações

A Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp) informou ter recebido 95 reclamações relacionadas a faturamento em 2026, envolvendo municípios da região.

Em Barueri, foram 49 registros até o momento neste ano. Em Santana de Parnaíba, foram 46.

Segundo a agência, desde a desestatização da Sabesp, em 2024, mais de 1,1 mil ações fiscalizatórias foram realizadas no Estado.

A Arsesp afirma que pode aplicar sanções em caso de irregularidades comprovadas, incluindo advertências e multas, além de determinar devolução de valores cobrados indevidamente — inclusive em dobro, conforme regulamentação.

A orientação é que o consumidor registre primeiro protocolo junto à concessionária e, se não houver solução, encaminhe a reclamação à agência.

Troca de hidrômetros e reajuste tarifário entram no debate

Os relatos de aumento nas contas passaram a se intensificar principalmente após a troca de hidrômetros em parte dos imóveis, segundo moradores.

Em paralelo, em 1º de janeiro de 2026 entrou em vigor um reajuste tarifário de 6,11% da Sabesp, referente à inflação acumulada dos últimos 16 meses. Foi a primeira revisão após a desestatização da companhia, em julho de 2024.

Apesar disso, consumidores afirmam que os aumentos percebidos vão muito além do índice oficial.

Serviço ao consumidor

Moradores que desejam contestar faturas podem sSolicitar revisão diretamente à Sabesp (com suspensão da cobrança durante análise), pedir vistoria técnica do hidrômetro, registrar reclamação na Arsesp pelo telefone 0800 771 6883 ou acionar o Procon em casos de suspeita de cobrança indevida.

Fonte: Folha de Alphaville  

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